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Presidente | «Semana do Barrosão inspira novo itinerário gastronómico»

29 Julho 2016
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O presidente da Câmara Municipal de Montalegre dá hoje uma extensa entrevista ao jornal "Correio do Minho" (Braga). A pretexto da III Semana do Barrosão, evento que se realiza na vila de Salto até domingo, Orlando Alves lança um conjunto de reflexões, entre elas, a garantia que o município irá atribuir 50 euros «por cada cria nascida no concelho de Montalegre».


O que é que a terceira edição da "Semana do Barrosão" oferece de novo?
É uma exposição-feira de produtos locais, desde o pão à manteiga caseira, passando pelas hortaliças e o artesanato. É também uma exposição de animais. Já há muita gente no concelho de Montalegre a dedicar-se à criação do porco bísaro. Vamos ter o porco bísaro em exposição, vamos ter garranos e, obviamente, o gado barrosão que é, indiscutivelmente, uma joia da pecuária nacional, uma das raças autóctones mais ricas que existem em Portugal. É também a festa da terra, onde há vitela barrosã para toda a gente provar. É uma montra do mundo rural que tem lugar num espaço lindíssimo junto ao rio.
 
É um ativo económico que está a ganhar importância?
É um ativo patrimonial. A realização desta "Semana do Barrosão" serve para que visitantes e naturais de Montalegre aprendam a valorizar este património que é nosso. Tendemos, muitas vezes, a desvalorizar aquilo que é nosso. A realização desta "Semana do Barrosão" visa mostrar que o esforços que os nativos estão a fazer na preservação desta raça é notável, que implica, inclusive, perda de rendimentos. Os nossos produtores sentem um orgulho muito grande em ter espalhado pelos campos e montes do Baixo Barroso esta espécie que Miguel Torga considerava donzelas com cornos. Este escritor assistiu a muitos concursos pecuários como o que vai acontecer agora em Salto para premiar os melhores produtores.

A perda de rendimentos dos produtores não é contraditória com a expansão da raça barrosã?
Seria interessante perceber por que é que as pessoas, perdendo muito rendimento, mantêm este fervor pela raça barrosã. Basta dizer que em oito meses uma vitela barrosã atinge 70 ou 80 quilos e uma vitela de outras espécies que se produzem no país atinge os 200 quilos. E no talho é tudo vendido ao mesmo preço. Pôr a restauração do concelho de Montalegre a dar preferência à carne barrosã é estar a edificar um percurso turístico como existem outros em Portugal.?Isto é que falta agarrar.?Se um dia conseguirmos fazer de Salto a capital da gastronomia centrada na carne barrosã, vamos ter a recompensa devida pela presença de pessoas que se deslocarão para apreciar um naco de boa carne.

O consumidor final não reconhece a qualidade da carne barrosã?
O consumidor continua a pagar a carne de qualidade e certificada de uma espécie autóctone ao mesmo preço da carne que vem da Holanda ou Dinamarca, que é alimentada sabe-se lá com quê. Como reconhecimento da importância que a raça barrosã tem e do potencial que pode vir a ter na sustentabilidade do território, o município de Montalegre acaba de aprovar um regulamento que vai premiar o nascimento destes animais, atribuindo 50 euros por cada cria nascida no concelho de Montalegre.

Quando é que esse incentivo estará disponível?
É para implementar no próximo orçamento da Câmara Municipal. É dever da autarquia apoiar quem está a preservar um valor identitário da nossa terra.

Montalegre tem respostas em termos de acolhimento hoteleiro para um público mais urbano que procura o concelho?
Montalegre já tem oferta hoteleira qualificada. Temos já mais de 400 camas com índices de ocupação simpáticos.

Tem defendido neste seu mandato autárquico uma política de valorização do território assente no crescimento do sector do turismo e na promoção de variados eventos. Curiosamente, neste fim-de-semana do Barrosão têm também a Volta a Portugal em Bicicleta em Montalegre.
Já tivemos o Campeonato Ibérico de Parapente, vamos ter o Campeonato Mundial de Parapente em 2018, temos o Campeonato do Mundo de Rallyross, a Feira do Fumeiro e a dinâmica imparável das Sextas-feiras 13. São eventos onde há injeção de capital por parte da Câmara Municipal de Montalegre. Fazemos isso de espírito e coração aberto.?Estamos a trabalhar para o futuro.

Podemos dizer que são esses eventos que vão mantendo ainda alguma coesão territorial em Montalegre?
Sim. É isso que dá visibilidade à terra, sustentabilidade ao território e que anima a economia local.

São estas realizações mais imateriais que competem fazer a uma Câmara como a de Montalegre, mais do que investimento físico?
Claramente. Este é o caminho que temos de seguir e o retorno já é visível. Temos uma terra bonita e com uma dinâmica muito maior em relação a outras, onde o definhamento é muito maior. Estancamos a perda demográfica.

Como faz esse investimento uma Câmara Municipal que gere hoje menos dinheiro do que há alguns anos?
Logo no meu primeiro ano de mandato (2014) parti com menos 1,1 milhões de euros em relação ao ano anterior. Este ano, por exemplo, para que os governos da desgovernada Nação façam as pazes com as EDP e os chineses e não sei o quê, para que sejam simpáticos para com o grande capital, estão a punir as autarquias, sobretudo as do interior. A chamada economia verde, que saiu da cabeça de um ilustre cidadão do distrito de Braga, o ex-ministro Moreira da Silva, serviu para tirar ao concelho de Montalegre, só este ano, 400 mil euros. Nas negociatas que se fizeram com a EDP atacam-se as rendas excessivas, compensadas com a isenção de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI). A EDP, que pagava IMI?pelas torres eólicas, deixou de pagar IMI.?Por decreto. Ninguém nos consultou. A receita de IMI é das câmaras municipais, mas quem manda é o desgoverno de Lisboa. Tivemos uma punição do Ministério da Educação quase imoral, equiparada ao que a União Europeia queria fazer a Portugal, que tira quase 800 mil euros ao concelho de Montalegre.

Porquê?
Quando a Câmara assinou o protocolo de transferência de competências na gestão das escolas, indicou-se o número de funcionários auxiliares afetos, os quais, à medida que se iam reformando, nós íamos substituindo. Mas, afinal, não os podíamos substituir. Quando, passados dez anos, constataram que mexemos na estrutura de pessoal, vieram com a punição. O Estado não é um parceiro sério a negociar, muito menos com as autarquias. Outra punição são os 700 mil euros que o ?Município de Montalegre tem de arrolar para o chamado Fundo de Apoio Municipal. Vai-se punir quem tem contas equilibradas para ajudar as autarquias que estão com dificuldades financeiras.

O presidente da Câmara Municipal de Montalegre continua muito zangado com o poder central?
Sim. Isto não muda. Há o propósito de se implementar um conjunto de descentralizações. Eu não aceito. Enquanto tivermos medo de mexer na ferida, ela não cura. Descentralizar pode ser importante para acabar com o corrupio de autarcas e agentes económicos para Lisboa, mas não para acabar com os desequilíbrios entre o interior e o litoral, que vão provocar problemas gravíssimos se segurança nos próximos dez anos com o envelhecimento e a desertificação. Não soubemos cuidar do povoamento.

Como se faz esse povoamento?
Desde os anos 70 que o País está todo pensado para os grandes centros e a faixa litoral. É preciso regionalizar. Há muitas coisas que governos regionais podem apoiar e que o Governo da República não pode face às diretivas de Bruxelas que são sempre para castigar os pobres e os periféricos. Enquanto não tivermos a audácia de pôr as regiões a competir, não saímos da cepa torta. Tudo estava preparado para não passar o referendo da regionalização, há alguns anos. Associaram logo o referendo à definição de fronteiras. Isso foi pernicioso.

Atualmente, há condições políticas para se recuperar a regionalização?
Devemos avançar com um processo de regionalização confinado ao espaço da comissões de coordenação. Uma capital simpática para um governo regional do Norte seria Vila Real. Não pode ser o Porto. O Porto é tão ou mais umbiguista e centralista que Lisboa, não tem é força. O que está agora a acontecer com a definição do quadro comunitário Portugal 2020 é um bom exemplo: se o presidente da Câmara do Porto pudesse usar todo o dinheiro do quadro comunitário na sua cidade, naturalmente que o faria.

O que é que Montalegre perdeu nessa luta pelos fundos comunitários?
Montalegre apanhou umas sobras, umas migalhas. Tudo está pensado para se fazerem as grandes aplicações de dinheiros nos sítios onde ele sempre foi aplicado. A única coisa que está contratualizada para o concelho de Montalegre, para sete anos, são seis milhões de euros. Desses seis milhões, a serem geridos pela Câmara são três milhões. Isto dá que pensar! Já conseguimos sensibilizar o diretor regional de Cultura do Norte para nos apoiar no propósito de incluir o financiamento da reabilitação do Castelo de Montalegre, fora desses seis milhões de euros. Estamos a falar de uma obra de 1,5 milhões de euros em património que é do Estado, que é monumento nacional. Era ao Estado que cabia alocar 15% do investimento para que a sala de visitas de Montalegre possa estar aberta ao público. A obra vai avançar em 2017, a Câmara vai lá meter os 250 mil euros que deveriam ser do Ministério da Cultura, mas vamos ter orgulho, vaidade e a alegria de abrir a sala de visitas de Montalegre. Estou na Câmara há 27 anos e ela esteve sempre fechada!
 
Presidente - «Semana do Barrosão inspira novo itinerário gastronómico»