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Estátua-Menir em Cervos
23 Agosto 2017
Na aldeia de Cervos, concelho de Montalegre, foi encontrado um achado arqueológico «avassalador», assim o define a equipa de arqueólogos que está a estudar uma descoberta que se tornou a primeira do género na Península Ibérica. Falamos de uma estátua-menir cujo cálculo aponta para 4.000 anos de existência. O vice-presidente da autarquia, David Teixeira - acompanhado por técnicos do Ecomuseu de Barroso - garantiu que o município não só se associa a este feito como referiu que estamos perante um magnífico exemplo do que é a «essência e a razão de ser do Ecomuseu».
Decorrem em bom ritmo as escavações arqueológicas em torno da estátua-menir da Cruz de Cepos, encontrada num terreno particular situado entre as aldeias de Arcos e Cervos, concelho de Montalegre. O achado está inserido numa investigação sobre os contextos arqueológicos das estelas e estátuas-menir do Alto Tâmega e Barroso. O projeto remonta a 2008 aquando da realização de trabalhos preparatórios de um estudo sobre a arte rupestre de Trás-os-Montes ocidental, que viria a ser apresentado ao Congresso Transfronteiriço de Arqueologia: um Património sem Fronteiras, organizado pela Câmara Municipal de Montalegre/Ecomuseu de Barroso, no final desse mesmo ano.
Por essa altura, nas visitas de reconhecimento a diversos sítios arqueológicos no concelho de Montalegre, foi encontrado no planalto que se estende a ocidente da Serra do Leiranco, um antigo marco de termo, delimitador dos lugares de Cervos e Arcos, conhecido como Cruz de Cepos. O monólito, fincado no Campo do Padrão, conserva uma composição de caráter geométrico gravada numa das faces, que chamara a atenção de Fernando Barreiros, autor da primeira referência publicada a este sítio (1920). Porém, a sua relevância, sob o ponto de vista arqueológico, só foi aferida na sua plenitude, em 2008, quando se verificou que configura um monólito afeiçoado artificialmente, de contorno antropomórfico, com os ombros marcados e cabeça esboçada, constituindo, na realidade, uma estátua-menir armada, estilisticamente similar a outras bem conhecidas na região: Faiões e Chaves, pertencentes à coleção do Museu da Região Flaviense, datáveis da Idade do Bronze.
O interesse científico do achado, justificou a realização, no ano seguinte, do projeto de investigação designado "Estudo monográfico e investigação dos contextos arqueológicos de duas estelas decoradas de Cervos (Montalegre) – Cruz de Cepos e Tojais", aprovado, pela tutela, no âmbito do Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos. Este estudo pioneiro visou a preparação da base documental para a publicação monográfica das peças e incluiu, por isso, o seu registo gráfico e fotográfico, prospeção de uma área circunscrita em redor dos sítios e escavação de uma pequena sondagem na base da estátua-menir.
ESTÁTUA-MENIR - "CRUZ DE CEPOS"
Monólito granítico que se insere num esquema primevo de estatuária, caraterizada por uma figuração inorgânica do corpo humano, criando formas tridimensionais tipificadas, conceptuais e tendentes ao abstracionismo. Na face lateral da Cruz de Cepos foi talhada, em baixo-relevo, uma espada cuja cronologia se poderá balizar entre a Idade do Bronze Inicial e Médio, quiçá percursoras da criação das estátuas de guerreiro bem conhecidas nesta região transmontana. A escavação revelou que toda a zona basal, destinada a ser soterrada, se encontra intacta e enterrada c. 1 m abaixo da cota atual do terreno. Atestou-se ainda a presença de materiais líticos e fragmentos de cerâmica manual no alvéolo de implantação da referida peça, cuja tipologia se assemelha à dos materiais arqueológicos recolhidos aquando da prospeção de superfície no terreno na sua envolvente. Estes resultados foram apresentados às IV Jornadas Raianas “Estelas e estátuas-menir da Pré- à Proto-história” e publicados nas respetivas atas (Alves e Reis, 2011).
CORPE - INVESTIMENTO ESTRANGEIRO
As fotos desta noticia testemunham os trabalhos que estão a ser feitos no local à luz do projeto de investigação plurianual CORPE - Corpos de Pedra. A ideia é dar continuidade aos trabalhos realizados, desta feita com uma equipa interdisciplinar alargada, recursos técnicos, laboratoriais e financeiros que permitirão aprofundar o conhecimento científico das realidades identificadas em 2008. Nesse sentido, foi lançado o desafio a diversos especialistas nos domínios da Arqueologia Pré e Proto-histórica e Geologia, resultando numa parceria internacional entre investigadores de Centros de I&D da Universidade de Coimbra, Universidade de Vigo e Universidade de Southampton e Universidade do Porto. A investigação desenvolvida, até ao momento, foi integralmente financiada pelas Universidades de Cardiff e Southampton, com o apoio logístico da junta de freguesia de Cervos.
No caso particular da estátua-menir da Cruz de Cepos, o estudo revela que é «premente colmatar algumas lacunas assinaladas no estudo anterior, designadamente proceder a uma mais rigorosa caraterização dos estratos arqueológicos identificados no alvéolo de implantação da peça e dos contextos materiais recolhidos à superfície do terreno». O caráter original deste projeto prende-se com a «possibilidade de aprofundar a investigação destas peças escultóricas mediante uma abordagem de cariz biográfico». Neste contexto, «as peças são concebidas como elementos social e culturalmente dinâmicos, no tempo e no espaço, o que se pode ser desvelado mediante a análise de aspetos formais relacionados com a sua manufatura, alterações, adições e movimento, desde o momento da obtenção da matéria-prima aos nossos dias».
EQUIPA DE TRABALHO
Lara Bacelar Alves
Investigadora em Arqueologia no Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP), doutorada pela Universidade de Reading (Reino Unido) em 2004. Dedica-se, há quase duas décadas, ao estudo da arte rupestre no Noroeste peninsular. Os seus interesses de investigação abarcam os diversos domínios da Pré-história, Antropologia Social e Antropologia da Arte.
Investigadora em Arqueologia no Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP), doutorada pela Universidade de Reading (Reino Unido) em 2004. Dedica-se, há quase duas décadas, ao estudo da arte rupestre no Noroeste peninsular. Os seus interesses de investigação abarcam os diversos domínios da Pré-história, Antropologia Social e Antropologia da Arte.
Marta Díaz-Guardamino
Docente no Departamento de Arqueología e Conservação na Universidade de Cardiff (Reino Unido), doutorou-se na Universidade Complutense de Madrid (Espanha) em 2009. Tem como área de especialização a escultura Pré e Proto-histórica, designadamente as estelas e estátuas-menir no espaço peninsular. Foi investigadora pós-doutoral na Universidade de Southampton (Reino Unido).
Beatriz Comendador Rey
Docente na Área de Prehistoria e vice decana da Faculdade de Historia da Universidade de Vigo. Em 1997, defendeu tese de doutoramento sobre os inícios da metalurgia no noroeste peninsular e, desde então, tem dedicado a sua investigação a esta temática. Partilha com a restante equipa, outros domínios de interesse que se estendem à arte pré-histórica, etnografia e antropologia social.
Docente na Área de Prehistoria e vice decana da Faculdade de Historia da Universidade de Vigo. Em 1997, defendeu tese de doutoramento sobre os inícios da metalurgia no noroeste peninsular e, desde então, tem dedicado a sua investigação a esta temática. Partilha com a restante equipa, outros domínios de interesse que se estendem à arte pré-histórica, etnografia e antropologia social.
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44