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«Morte de Montalvão Machado foi uma grande perda!»
26 Junho 2012
Num discurso emotivo, Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, falou do desaparecimento de Júlio Montalvão Machado, um dos fundadores do Partido Socialista e figura incontornável da implementação do regime democrático em Portugal. O autarca lembra os traços do perfil de Montalvão e a simpatia indisfarçável que sempre nutriu pelo concelho de Montalegre.
Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, não poupa elogios à trajetória de vida de Júlio Montalvão Machado, desaparecido esta semana com 83 anos. Para o autarca do Barroso estamos perante uma perda que se estende a vários domínios. Montalvão Machado inspirou os valores da democracia portuguesa de onde saiu a matriz do que somos hoje, isto é, um país onde a liberdade e a partilha podem ser assumidos sem medos. Fernando Rodrigues, em tom emotivo, descreve a importância deste vulto da democracia portuguesa sustentado em episódios, alguns deles bem curiosos.
LUTADOR ANTIFASCISTA
«Foi com grande pesar que nós ouvimos esta notícia porque o Montalvão Machado, para além de um amigo, era uma figura prestigiada na política e na cultura da região. Distinguiu-se, logo na sua juventude, como um lutador anti fascista. Na campanha do Humberto Delgado foi um dos apaixonados e um dos homens que fez a campanha na região. Um dado particular: poucos dos registos áudio do Humberto Delgado foram guardados, durante muito tempo, de forma sigilosa, pelo Montalvão Machado. Um pequeno gravador foi guardado e depois procurado pela PIDE durante muitos anos. Foi restaurada a cassete e foi matéria de investigação e tradução para o livro que o seu neto publicou sobre a vida do Humberto Delgado».
Sem se deter na carga elogiosa, o presidente da autarquia de Montalegre sublinhou: «está ligado, desde sempre, à luta politica e ao combate anti fascista dando um grande contributo ao desenvolvimento do país. Ele foi um dirigente do PS mas não foi só um dirigente. Foi um fundador, com Mário Soares, do Partido Socialista na clandestinidade. Já só há nove fundadores. Partiu mais um. Devemos-lhe este reconhecimento de ter contribuído, na clandestinidade, para formar um partido da democracia. Contribuiu para o 25 de Abril, para a implementação da democracia em Portugal, para o desenvolvimento de Portugal ao longo destes anos».
HOMEM DA LIBERDADE
«Era um democrata, um homem da liberdade e um grande defensor da justiça social. Foi governador civil de Vila Real logo a seguir ao 25 de Abril. Entre os cargos políticos que desempenhou a nível nacional, foi-lhe entregue o cargo de presidente honorário do PS de Vila Real. Para além de politico, era um profissional competentíssimo. Geriu o hospital de Chaves. Sempre disponível para ajudar as pessoas, sobretudo as mais carenciadas. Deu também uma grande dedicação cívica à cidade e à região. Tem um trabalho cultural publicado de investigação histórica. O último trabalho que fez do António Granjo é um trabalho de investigação muito bem feito. O Montalvão falava muito bem, discursava muito bem mas escrevia ainda melhor. Tem uma obra literária notável».
MONTALEGRE: SEGUNDA TERRA!
«Considerava Montalegre a sua segunda terra! Em muitos pormenores parecia mais montalegrense do que flaviense. Tinha também uma grande ligação à natureza e ao ambiente. Era um apaixonado pelo Larouco, pelos rios e pelos lameiros. Tinha também uma ligação à gente. Conhecia sobretudo os mais velhos e muitos que, infelizmente, já não estão entre nós. Falava muito dos seus nomes, das brincadeiras que teve na juventude quando ele passava aqui muito dos seus tempos nas férias. Conheceu muita gente e deixou aqui um bom relacionamento e amizade. Para além da terra e das pessoas, tinha uma paixão pelo pão de centeio e pelo presunto. No entanto, a predileção dele eram as trutas do rio Cávado. Cada vez que me encontrava falava com uma delicadeza, com uma beleza, com uma paixão e com uma saudade da "bica de leite" e da manteiga que se faziam em Montalegre...há 50, 60 ou 70 anos. Era um flaviense mas era um grande barrosão, por isso, uma perda para o país, para a região e também para Montalegre».
MONTALVÃO MACHADO
O fundador do Partido Socialista Júlio Montalvão Machado morreu esta semana com 83 anos. Oftalmologista de profissão, Júlio Augusto de Morais Montalvão Machado foi um dos fundadores da Ação Socialista Portuguesa e, depois, do Partido Socialista. Fez parte da Comissão Nacional e da Comissão Diretiva do PS, tendo exercido todas as funções partidárias em Vila Real, distrito de onde era natural. Foi presidente honorário da Federação Distrital do PS de Vila Real, governador civil de Vila Real (1974-1975), deputado (1979-1980) e presidente da Assembleia Municipal de Chaves (1993-2001). Perseguido pelo regime do Estado Novo, Montalvão Machado só viria a ser autorizado a exercer funções profissionais no Serviço Nacional de Saúde após o 25 de Abril de 1974. Ao longo dos anos, Júlio Montalvão investigou história política portuguesa, em especial o pós Invasões Francesas e o período da implantação da República. A história dos Defensores de Chaves (1912) e a vida de António Granjo, primeiro-ministro em 1920/21 e seu familiar, foram a base das suas inúmeras publicações.
Militante do Partido Socialista, com o cartão nº10, transmontano nascido em Vila Real a 27 de Julho de 1928, era irmão do advogado e político do PSD Mário Montalvão Machado, falecido há dois anos, e filho do magistrado e escritor Júlio Augusto Montalvão Machado e de sua mulher Olinda de Morais.
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44