«O mundo rural não vai acabar!»
11 Julho 2011
Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, falou na abertura da MANIFesta 2011, evento realizado na vila de Montalegre entre 7 e 10 de Julho. Entre os vários considerandos e alertas que deixou, o edil reforçou a esperança que deposita no mundo rural a ponto de garantir que o setor primário não irá desaparecer. Uma luta diária contra o «centralismo», uma «receita errada» que tem minado o desenvolvimento das regiões menos favorecidas.
Para Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, o município enfrenta «um problema grave de povoamento no interior». No entender do edil «há muitas aldeias na morte social. Com os novos produtos locais o sector agrícola e agro-pecuário (como é o caso do Barroso com o Ecomuseu) evoluiu lentamente. Mas, apesar disso, não consegue absorve a mão-de-obra excedente da velha agricultura. Os investimentos no turismo são pouco apoiados, de alto risco, e por isso com pouca expressão. A indústria é incipiente».
Foi com este conjunto de reflexões que Fernando Rodrigues se apresentou na cerimónia inaugural da MANIFesta, evento realizado na capital do Barroso de 7 a 10 do corrente mês.
Sem se deter, o autarca continuou: «numa zona do interior e de montanha, como a nossa, uma rede de água e saneamento chega a custar 2 vezes mais que no litoral, e o mesmo se passa com uma estrada. Os atuais sistemas de abastecimento de água penalizam as regiões de baixa densidade populacional porque tudo é calculado em função dos custos e do número de consumidores, o mesmo acontecendo com os sistemas de resíduos sólidos urbanos, dando origem a tarifas exorbitantes, injustas e insuportáveis para os agregados familiares mais débeis. Tudo isto faz a região mais pobre e mais deprimida. E a sangria da população, à procura de emprego, aumenta de dia para dia».
«ESTAREMOS CONDENADOS? NÃO!»
A interrogação do edil surgiu: «Será que estamos condenados a este destino? Não! Costuma dizer-se: Para grandes males, grande remédios». Todavia, o discurso de Fernando Rodrigues tocou em factos que comprovam as assimetrias do país: «Se há um problema de circulação em Lisboa, faz-se uma nova ponte; se há problemas de transportes urbanos nalgumas cidades, faz-se o metro; o tráfego automóvel é insuportável, fazem-se circulares, viadutos e túneis; o aeroporto de Lisboa não é suficiente, faz-se outro. E o Porto, que não quer ficar atrás, pede o TGV para Vigo!».
Face a este quadro, Fernando Rodrigues, constatou: «como é que os agricultores do Barroso, o suporte de 80% da economia local, vão trabalhar e singrar se a batata vinda do vale de Ginzo é três vezes mais barata que a nossa? Como é que os nossos agricultores vão vender a carne, apesar da sua excelente qualidade, se não há circuitos de comercialização e se do estrangeiro vem a um quarto do preço? Como é possível pedir para se produzir se se dão subsídios para ter as terras de pouso? É que mesmo com projetos inovadores, como é por exemplo o Ecomuseu de Barroso, não é possível resolver todos os problemas e enfrentar o poderio dos grandes negócios nem livrarmo-nos das garras e da asfixia da política da União Europeia».
FARPAS À...EDP
Chegado aqui, o autarca sublinhou: «Há males externos. Mas também há males internos que criam e agravam as desigualdades territoriais. Veja-se, por exemplo, este caso: em Montalegre há uma empresa que fatura entre 100 a 150 milhões de euros por ano, sem pagar matéria-prima. Se em vez da EDP tivéssemos outra industria que faturasse esses valores seríamos um concelho rico. Com emprego e boas receitas de impostos. Mas as barragens são comandadas à distância. O emprego fica lá fora, os impostos são pagos, para escândalo, em Lisboa e no Porto. Há 20 anos que prometem alterar isto e continuamos à espera. Há dois anos o governo negociou a renovação da concessão das barragens de Montalegre por mais 30 anos. Cobrou 250 milhões de euros. Para onde foi o dinheiro? Ficou algum em Montalegre? Zero!
É assim que se defende o interior? É assim que se faz solidariedade com o interior? É assim que se faz justiça com o interior?».
É assim que se defende o interior? É assim que se faz solidariedade com o interior? É assim que se faz justiça com o interior?».
«SUGAM-NOS TUDO...
ATÉ AS PESSOAS»
Apesar das desigualdades e do critério disforme, Fernando Rodrigues acredita que o mundo rural não vai morrer e explica porquê: «o mundo rural é uma reserva de mão-de-obra, de alimentos e de espaço, uma reserva ambiental, cultural de consciência e até moral. Por isso o mundo rural não é um resíduo inútil. O mundo rural continua com virtualidades. Daí que seja imperioso implementar um conjunto de políticas de desenvolvimento direcionadas para a produção e o emprego, num projeto de economia sustentável. A história do mundo rural tem sido um processo de perda de vitalidade e progressiva desertificação humana. É aqui que está a raiz do mal. Sugam-nos tudo, até as pessoas».
Apesar das desigualdades e do critério disforme, Fernando Rodrigues acredita que o mundo rural não vai morrer e explica porquê: «o mundo rural é uma reserva de mão-de-obra, de alimentos e de espaço, uma reserva ambiental, cultural de consciência e até moral. Por isso o mundo rural não é um resíduo inútil. O mundo rural continua com virtualidades. Daí que seja imperioso implementar um conjunto de políticas de desenvolvimento direcionadas para a produção e o emprego, num projeto de economia sustentável. A história do mundo rural tem sido um processo de perda de vitalidade e progressiva desertificação humana. É aqui que está a raiz do mal. Sugam-nos tudo, até as pessoas».
CENTRALISMO - RECEITA ERRADA
«O mundo rural deve merecer um processo de revitalização que salvaguarde e potencie os seus recursos e dê consistência e robustez ao seu equilíbrio natural num quadro de desenvolvimento genuíno e de diversidade e qualidade do conjunto do território. Este objetivo exige um esforço de solidariedade que deve ser pedido e explicado a todos os cidadãos através de uma redistribuição pelas regiões da riqueza do país, que dê prioridade e resposta aos bloqueios do mundo rural», defendeu Fernando Rodrigues, até porque, reforçou, «o mundo rural faz falta. O mundo rural não vai acabar. Não pode acabar (...) O centralismo engana-nos, divide-nos, explora muitas vezes sentimentos bairristas para ridicularizar o poder local e o regionalismo, apregoando falsos moralismos, unidades e rigor e até, muitas vezes, a demagogia do interesse nacional. Prejudica-nos sistematicamente. O centralismo é uma receita errada, dos tempos de hoje, e quer acentuar-se. E com isso pôr o poder cada vez mais longe do interior. Mas não desistimos».
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44