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'Portugal a Pé' apresentado no Ecomuseu de Barroso
27 Janeiro 2012
Foi apresentado na sede do Ecomuseu de Barroso, Montalegre, o livro "Portugal a Pé" da autoria do jornalista Nuno Ferreira. Na obra podemos ler reportagens em exclusivo feitas com os caminhos que o jornalista percorreu a pé. Nesta publicação estão rostos, paisagens, tradições de um Portugal, por vezes, recôndito.
“Se toda a gente anda a viajar e a escrever sobre todos os cantos do mundo, pensei então,
porque não revisitar o interior do meu país a pé e escrever sobre o que vou encontrando pelo caminho?»
In, Nuno Ferreira
Montalegre figura no "Portugal a Pé" de Nuno Ferreira, livro que rasga o país de lés a lés. A obra foi mostrada ao público no dia inaugural da XXI Feira do Fumeiro. Presentes, para além do autor, Rui Dias José, responsável pelo prefácio da obra, e Fernando Rodrigues, presidente da autarquia barrosã. A abrir o painel de oradores, o edil começou por recordar o impacto da Feira do Fumeiro: «se hoje tem o prestígio que tem e se é um cartaz nacional» deve-se «muito ao esforço e investimento realizados», à «teimosia, aprumo e qualidade dos produtores». Todavia, este feito não seria alcançado se «nós não tivéssemos a relação que conseguimos ter com a comunicação social». Ato contínuo, lembra que a «comunicação social faz e desfaz, constrói e destrói com facilidade». O lançamento e projeção nos primeiros anos «foi bem aproveitado e mantido nas edições seguintes», e em parte «isso deve-se a uma pessoa que está aqui», abona. No elogio, o político dirige «reconhecimento e agradecimento» a Rui Dias José. Aviva memórias «dos tempos que ele esteve em Montalegre» e «muito fez pela promoção e divulgação da nossa feira, dos nossos produtos». Foi «uma semente que ficou na opinião pública», ressalva. Essa atitude do jornalista «foi também uma provocação a outros colegas para agarrarem este filão».
«TENHO INVEJA DO NUNO»
Fernando Rodrigues, cita Rui Dias José, que prefaciou a obra, e afirma que «também tenho inveja do Nuno». Isto porque «apesar de conhecer muito bem a nossa terra e de a calcorrear muitas vezes, estamos sempre a encontrar coisas novas» e a ter «novas sensações». Em cada nova passagem «é um pisar de terra diferente, um olhar diferente para uma paisagem». Nesse sentido, reforça que «apaixonamo-nos cada vez mais pela nossa terra».
«GENTE QUE TEM MELHOR
OLHOS QUE NÓS»
Em tom de análise, o autarca de Montalegre refere que «é bom ler isto de gente de fora, gente que tem melhores olhos que nós e que vê as coisas de outra maneira». É um importante contributo para «também nós aprendermos a conhecer melhor a nossa terra» e «aprendermos a gostar mais da nossa terra», continua. Esse «é um dos objetivos do Ecomuseu» e é por isso «que também estamos aqui», assegura Fernando Rodrigues.
«APELO AOS POLÍTICOS»
Nesta obra fala-se «de desenvolvimento» e «apela-se aos políticos para que aprendam com ele», comenta Fernando Rodrigues. «É bom que os políticos conheçam melhor a realidade, a vida, aquilo que é o Portugal inteiro e o interior». Só assim «podem tomar melhores decisões», que travem «relatos de um país rural ameaçado pela extinção», acrescenta.
«O país quase não existe nos meios de comunicação social», afirma Rui Dias José. Foi nesse sentido que «achamos que este livro era fundamental» e «que era preciso falar destas coisas». Por isso «a mim cabia-me fazê-lo e dar condições de trabalho ao Nuno para fazer este livro». Quando o Nuno Ferreira «entregou o texto, nós podíamos pegar num brilhante fotógrafo e dizer-lhe para fotografar o país», assume. Contudo, «não era a mesma coisa». Ficou decidido «aproveitar o material fotográfico, que era a sua primeira impressão», recorda.
«HOJE QUALQUER PESSOA
FAZ LIVROS»
Tendo em mente a realidade atual, Rui Dias José profere que «hoje qualquer pessoa faz livros». Com consciência «de que vendem muito, mas que passados seis meses já ninguém sabe o que foi produzido». Esta obra, «distribuída por uma das principais distribuidoras livreiras portuguesas», mantêm-se no seu top «há seis semanas». Este acontecimento, «é para nós um grande orgulho» e o «livro também». Isto só prova que «apesar de tudo há procura e gente que quer saber».
«É UM GRANDE PRAZER»
Para Nuno Ferreira, autor de “Portugal a Pé”, «é um grande prazer estar aqui em Montalegre» e encontrar «algumas caras bem conhecidas da minha viagem pelo Barroso». Durante o período «que durou a minha viagem a pé, dei por mim apaixonado». Nesta região, «criei uma empatia grande em as pessoas e a paisagem», revela. Nessa linha, reforça que «é muito gratificante ver aqui estas caras que conheci» e que «colaboraram comigo no trabalho que eu queria fazer».
«RECONHECIMENTO FABULOSO»
Para o Ecomuseu de Barroso «é um reconhecimento fabuloso ter uma pessoa, que conhece Portugal de lés a lés», a reconhecer que «aqui se está a fazer um projeto que valoriza a identidade do povo», certifica David Teixeira, diretor do “museu vivo”. Nessa ordem de ideias, refresca a memória e lembra que é missão do Ecomuseu «valorizar a região, dar esperança às pessoas, fazer projetos concretos para que as pessoas acreditem que vale a pena voltar à terra, vale a pena apostar». Acima de tudo, é importante ter «consciência que «ainda falta fazer muito pelo desenvolvimento local», mas que «estão ser dados passos, que em outras regiões ainda não foram dados.
Em Junho de 2010, Nuno Ferreira passa por Montalegre e é este o registo que fica do jornalista:
"Descia um caminho pedregoso perto da aldeia de Azevedo quando ouvi chocalhos. Avistei as cabras, primeiro. Depois, surgiu o aldeão, bordão assente no ombro direito.
"Descia um caminho pedregoso perto da aldeia de Azevedo quando ouvi chocalhos. Avistei as cabras, primeiro. Depois, surgiu o aldeão, bordão assente no ombro direito.
Você atravessa o Cávado naquela ponte lá em baixo e segue sempre para Covêlo», explicou, um sorriso largo e genuíno, que lhe engelhou as rugas junto aos olhos e exibiu uma falha nos dentes.
Aquilo era o que queria ouvir. Avistara a ponte lá em baixo junto à pequena corrente que desemboca na Barragem da Venda Nova
Aquilo era o que queria ouvir. Avistara a ponte lá em baixo junto à pequena corrente que desemboca na Barragem da Venda Nova
e decidira desistir de seguir pela margem direita depois de outro aldeão em Azevedo me descrever o caminho até São Lourenço, já para as bandas de Cabril, como um mar de silvas.
A caminho de Ferral e mais tarde Venda Nova, já no perímetro da albufeira, entre vacas muito castanhas e cornos altivos espreitando cada passo meu
A caminho de Ferral e mais tarde Venda Nova, já no perímetro da albufeira, entre vacas muito castanhas e cornos altivos espreitando cada passo meu
entre arremedos de vinhas e espigueiros, comecei a perceber que se aproximava a minha despedida do enorme concelho de Montalegre.
Um pé na Serra da Cabreira e outro ainda no território verde, mágico e hospitaleiro do Barroso, vieram-me à memória cenários, frases soltas, personagens, contadores de histórias que ia deixar para trás.
Um pé na Serra da Cabreira e outro ainda no território verde, mágico e hospitaleiro do Barroso, vieram-me à memória cenários, frases soltas, personagens, contadores de histórias que ia deixar para trás.
«O povo barrosão é são», definira-me Fernando Moura, mais conhecido por Fernando do «Barracão», o rei das chegas de bois barrosos.
«O barrosão abre-se para qualquer pessoa, é capaz de dar a camisa, dar de comer, dar a casa mas se desconfiar e sentir-se ferido, nunca mais».
Ao longo da estrada barrosã, entre fornos do povo, vestígios romanos, carvalhos e urze a despontar nos campos, fui encontrando cicerones, contadores dos tempos que acabaram.
«Nem neve nem chuva, não entrava nada nas croças de junco, andávamos com o gado pelo monte e até suávamos porque ainda botávamos a capa de burel por baixo se estivesse muito frio», contou-me o Ti Joaquim, 85 anos, o último croceiro do concelho.
Na Solveira, o meu anfitrião foi Jaime da Silva, ex-ferreiro, ex-emigrante em França, defensor do património da aldeia e coleccionador de tudo o que é antigo.
Na Solveira, o meu anfitrião foi Jaime da Silva, ex-ferreiro, ex-emigrante em França, defensor do património da aldeia e coleccionador de tudo o que é antigo.
«Vê esta sineta em pedra? Era aqui que se chamava o gado para pastar em vezeira, à vez, tudo em comunidade…» Bem mais adiante, já em Montalegre, Fernando Moura lembrou quando em criança organizava chegas improvisadas.
«A minha aldeia era ponto de passagem das manadas. Esperávamos que os guardadores fossem dormir, tirávamos o boi mais forte e punhamo-lo a chegar com o nosso».
Às vezes, a brincadeira corria mal: O boi escapava-se estrada acima ou então não queria sair e bruava, acordando os guardadores.
Às vezes, a brincadeira corria mal: O boi escapava-se estrada acima ou então não queria sair e bruava, acordando os guardadores.
O resultado era umas quantas vergastadas, que não arrefeceram nunca a paixão de Fernando pelas chegas. Onde houver uma, lá está ele a relatar para a Rádio Montalegre e para a TV Barroso:
«Já pegaram, já pegaram, o boi do Domingos está a roncar, vamos lá a ver, já estão a torrar a valer, a esgalhar bastante bem, ei, eh touro, o outro já foge, bela chega! Miguel, Miguel, para a TV Barroso, satisfeito com a vitória do teu touro?»
De modos que me despedi num dia de sol, a assistir a um chega de bois. No estádio vizinho, o Desportivo de Montalegre falhava a manutenção na Terceira Divisão
De modos que me despedi num dia de sol, a assistir a um chega de bois. No estádio vizinho, o Desportivo de Montalegre falhava a manutenção na Terceira Divisão
mas ali, a excitação antecipava a do começo do Torneio de Chegas de Bois Barrosos, quarta-feira, dia 9 de Junho: «Berra pelo touro, berra por ele! Eh Mané!»"
"PORTUGAL A PÉ" - Reportagem
"Portugal a Pé" apresentado no Ecomuseu de Barroso - Reportagem TV BARROSO
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44