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Presidente - «A qualidade de vida sai-nos do bolso»
11 Maio 2014
O presidente da Câmara Municipal de Montalegre foi, por estes dias, entrevistado em Braga na rádio Antena Minho, conversa que foi transcrita, dias depois, com enorme destaque, no jornal Correio do Minho. Orlando Alves falou de lamentos e de esperança de um concelho que quer mais agarrado aos valores que o carateriza.
«Orlando Alves, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, confessa-se desencantado com o destino a que os concelhos do interior foram votados nas últimas décadas. A entrevista ao jornal Correio do Minho e rádio Antena Minho começou e terminou com uma paixão do edil barrosão: a música».
Ainda continua a cantar?
De vez em quando. Gosto muito de cantar fado. Em ambiente familiar fazemos umas brincadeiras simpáticas.
De vez em quando. Gosto muito de cantar fado. Em ambiente familiar fazemos umas brincadeiras simpáticas.
De onde vem o seu gosto pela música?
É de família. A minha mãe também integrava o Grupo de Cantares de Salto.
Ainda tem tempo para cantar no Grupo Coral de Montalegre, do qual também faz parte?
Ainda faço parte. De vez em quando ainda lá vou. Tivemos um espectáculo no dia 25 de Abril e eu não actuei porque não tinha ensaiado. O cantar alivia-me das minhas tensões. Às vezes até digo que também tinha futuro a cantar (risos).
Tem manifestado a intenção, como presidente da Câmara Municipal de Montalegre, de estancar a saída de residentes. O seu concelho ainda sofre muito o problema da emigração e da desertificação humana?
É terrível, é dramático! Não estamos a ser dignos de nós próprios. Acomodámo-nos à ditadura. No dia 24 de Abril éramos todos colaboradores do regime, no dia 25 virámos todos democratas.
Já agora, onde estava no dia 25 de Abril?
No dia 22 de Abril de 1974 entrei em Mafra para fazer o curso oficial militar e só ali é que me apercebi que estava a meter-me num buraco sem saída. Ainda fui ao Ultramar, ainda fui passar seis meses de férias a Angola. Não soubemos agarrar a oportunidade do 25 de Abril para preparar e construir um futuro melhor. Somos, lamentavelmente, a sociedade mais desigual da Europa, as elites governaram-se a elas próprias e deu no que deu. Ainda hoje damos provas de não saber agarrar o nosso futuro quando se anunciam já medidas que a economia do país de todo pode permitir ou contemplar. Nos anos 60 via os homens da minha terra, pela calada da noite, a descer a rua e a chorar de forma muito comovida porque deixaram mulheres e filhos para trás para dar o salto. Isso nunca nos largou.
Não são muitos os barrosões que regressaram à terra natal?
Muito poucos. E alguns deles já tiveram que sair de novo. Isto é dramático porque não sabemos traçar desígnios para nós próprios. Em 40 anos, três vezes fomos à bancarrota.
Está ligado ao poder autárquico desde 1979 pelo Partido Socialista. Nestes anos o interior do país tem sido maltratado e esquecido?
Completamente. Quando, há 24 anos, chegámos à Câmara éramos 30 mil no concelho, hoje somos 12 mil. Estivemos a infraestruturar um concelho bonito, convencidos de que daí poderia resultar alguma fixação das pessoas à terra. Temos 100% de cobertura de serviço domiciliário de água, 80% da população está servida com saneamento, temos um concelho harmonioso e lindíssimo. É um daqueles sítios onde é possível ser feliz...
Então o que é que faz falta?
O que faz falta é economia. O sector primário em Montalegre era pujante, tínhamos bons índices de produtividade. A nossa adesão à União Europeia comprometeu e destruiu todo o sistema produtivo. Onde não há empregos as pessoas não podem fixar-se. O nosso sector primário poderia ter sido empresarializado, permitindo que os barrosões se fixassem na sua terra.
Fixou o objectivo de investir um milhão de euros no sector primário. A Câmara de Montalegre quer líder neste "regresso à terra"?
Se não o fizermos nós, ninguém o fará. Assim como tivemos a ousadia de fazer uma grande feira de fumeiro que serviu de mote a muitas realizações que se fazem noutros concelhos, também tenho fé de que vamos dar um abanão nas mentes e na estrutura fundiária por forma a que possamos ver gente nova ligada à empresarialização do sector produtivo primário.
O gado barrosão assume importância nesse contexto.
A carne barrosã vai merecer uma atenção especial, não só porque é o monumento ambulante de Montalegre, mas porque é de um sabor extraordinário. O solar da carne barrosã, sediado na minha terra, a freguesia de Salto, no último fim de semana de Julho irá acolher uma grande realização de promoção deste gado. Já temos confirmada a presença do ministro do Desenvolvimento Regional numa primeira grande acção destinada a dar ao gado barrosão a visibilidade que ele merece. Sobretudo para que as pessoas tenham consciência de que, país abaixo, muitos talhos que dizem ter carne barrosã vão ter que ser identificados. A certificação da carne já existe, mas há muito abuso na sua comercialização. Estamos a trabalhar um modelo com os produtores que complemente o esforço que o município tem vindo a fazer com a sanidade animal, sector com o qual gastamos 400 mil euros por ano. Complementarmente, iremos qualificar a profissão de pastor, que tem de ser entendida como uma profissão nobre. Sinto a necessidade de, tal como se faz com a feira do fumeiro, tornar o cabrito de Montalegre mais acessível e popular.
Diz que o repovoamento de Montalegre passa pela dinamização económica, mas não está a pensar aproveitar a reindustrializalção do país de que tanto se fala. O turismo e o sector primário são áreas a desenvolver?
Não há milagres. Andaram muito tempo a fazer crer que seríamos todos felizes sem trabalhar. O que eu digo aos jovens da minha terra é que tragam ideias que nós apoiamos. No feriado municipal de 9 de Junho vamos fazer uma espécie de congresso barrosão, onde vamos pôr os jovens a discutir com os políticos, com aqueles que já tiveram mais ou menos responsabilidades no concelho. É à volta daquilo que nós somos que nos podemos desenvolver com pujança económica e social. Com os apoios que a câmara pretende dar, com o novo quadro comunitário de apoio que aí vem, as pessoas só têm de decidir se querem ser senhores na sua terra ou escravos na terra dos outros. O mundo global de que se fala é escravatura, os quadros qualificados que estamos a exportar são mão-de-obra barata, outra forma de escravatura. Com o encontro do dia 9 de Maio pode dar-se o ‘clic’ para uma ideia ser materializada e fazer um jovem ser senhor na sua terra. É só com mentes abertas que o futuro se constrói. Deixo este desafio aos jovens da minha terra.
Apesar desse empenho, quando se está num concelho que perde serviços de saúde e em que a Repartição de Finanças pode fechar em breve...
São políticas desenhadas contra a corrente. Não vale a pena nós repormos o abono de família, ter municípios que promovem a natalidade, se para educarmos um filho gastamos mais do que um citadino de Braga, Porto ou Lisboa; se, por questões de saúde, temos de recorrer para Braga, Porto, Coimbra ou Lisboa. Temos muita qualidade de vida, mas sai-nos tudo do bolso. Se encerram os serviços públicos, o Estado desresponsabiliza-se, furta-se ao papel que lhe cabe, é apenas um ‘pai’ muito sacana que nos deixa ao abandono.
A Câmara de Montalegre está disposta a assumir custos de alguns serviços públicos que caberiam ao Estado. Já obteve alguma resposta?
Não. Se tivemos agora fracas elites e fracos condutores, no Documento de Estratégia Orçamental estão a oferecer-nos coisas que sabemos não deviam dar-nos. E ninguém reage. Temos fracas elites, mas o povo não tem sabido estar à altura. A fidelização que o povo faz aos dois partidos do arco do poder é perniciosa.
Quer reactivar a produção de batata de semente no concelho de Montalegre?
A batata era o ouro de Montalegre, era o petróleo de Montalegre. A produção intensiva levou a que o território fosse proibido de produzir batata. As terras estiveram de estar em pousio durante 20 anos porque estavam infestadas de doenças. Ultrapassado este período de quarentena imposto, iniciámos este ano um processo de retoma da produção da batata de semente com doze aderentes a quem distribuímos a batata e suportámos os custos da análise dos terrenos. A produção é acompanhada técnica e laboratorialmente.
À semelhança da carne barrosã, do cabrito e de outros produtos locais, a batata de Montalegre pode ressurgir com um produto diferenciador do concelho?
Não tenho dúvidas nenhumas. O nosso país importa anualmente milhares de tonel adas de batata de semente. Temos condições de a produzir localmente. Ao fazê-lo, estamos a impedir a saída de dividas. Evoquemos aqui o patriotismo: temos de gostar do nosso país.
Apesar da requalificação que foi feita na estrada nacional 103, ir de Braga a Montalegre, mesmo com a beleza da paisagem, desmotiva um pouco.
As duas intervenções feitas até às Cerdeirinhas mitigaram um pouco as dificuldades desta ligação. Das Cerdeirinhas para a frente, naquela que eu considero ser a estrada mais linda de Portugal, na orla do rio Cávado e sobranceira ao Gerês, está a acontecer uma coisa verdadeiramente criminosa: as margens da ‘103’ foram transformadas em estaleiro com britadeiras e depósitos de pedra, terra e lenha.
As potencialidades turísticas de Montalegre são evidentes. Não falta capacidade hoteleira?
Já estivemos melhor, mas temos 400 camas, o que é muito bom. O desenvolvimento turístico só se faz com movimentos internos, que é o que nos faz falta. O facto de sermos uma sociedade muito desigual faz com que quem tem efectivamente possibilidades de fazer turismo não dispensa meter-se num avião ‘low cost’e ir para fora. A verdade é que a coesão territorial e social exigiria que todos tivéssemos a preocupação de conhecer o nosso país. Faço isso todos os anos. É preciso que gostemos da nossa terra e que haja fluxos internos.
É nesse sentido que a Câmara de Montalegre tem procurado criar uma agenda de eventos?
Temos investido muito. Ainda recentemente tivemos um campeonato mundial de rally-cross, uma coisa do outro mundo. Temos o desporto natureza e as sextas-feiras 13...
Que são famosíssimas em todo o país.
Antes de vir para aqui estive a trabalhar no programa da próxima sexta-feira 13 (n.r. 13 de junho) onde vamos gastar 150 mil euros. Sabemos que vamos receber dezenas de milhares de pessoas que têm de ser bem acolhidas. Estamos a trabalhar também numa final de etapa da Volta da Portugal em Bicicleta no alto da Serra do Larouco. Futuramente, vai ser um cartaz tão apelativo quanto é a Senhora da Graça ou a Serra da Estrela. Procuramos fazer coisas novas dando sustentabilidade à nossa terra.
O projecto de um centro interpretativo das Minas da Borralha insere-se também nessa vossa estratégia?
Há ali um património mineiro que urge recuperar e rentabilizar, direccionando-o para a chama turística diversificada que queremos que o concelho de Montalegre tenha. As Minas da Borralha foram, durante muitos anos, a maior indústria do distrito de Vila Real. A globalização fechou as portas daquela empresa que operava com 700 trabalhadores. A China inundou o mercado com volfrâmio a baixo preço e não houve outra saída que não fosse o encerramento das Minas da Borralha. O conjunto arquitectónico que ali ficou foi-se abandonando, as pessoas que ali viviam também foram um bocado abandonadas à sua sorte e a Câmara de Montalegre teve de comprar o bairro para que os moradores não fossem atirados a uma miséria maior. Temos o projecto do Eco-Museu para valorização do território, das actividades e das pessoas do Barroso, com pólos em Montalegre, Pitões, Tourém, Vilar de Perdizes e Salto. O projecto tem agora o pólo museológico das Minas da Borralha, onde já gastámos centenas de milhares de euros.
É um projecto apoiado por fundos comunitários?
Exactamente. E vamos continuar a investir por forma que haja mais uma atracção turística que dê ao território a diversidade e atractividade que queremos.
É uma intervenção que vai durar muito tempo?
Sim. Acabámos uma intervenção nos antigos escritórios da companhia. Está ali todo um manancial de informação que iremos pôr à disposição das universidades. Temos a fundição que era única na Europa, que trabalhava com um arco voltaico.Vamos alargar a intervenção à lavandaria e fazer a reconstrução do ‘rail’ da mina, que será um espaço visitável e o mais atractivo que as Minas da Borralha virão a ter. Há ali um património riquíssimo que importa preservar.
Quando pensa terminar essa intervenção?
Estamos já a trabalhar na Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega um plano para os próximos seis anos. Este projecto vai ter concerteza a aceitação da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte porque se trata de um projecto-âncora que pode trazer vitalidade a uma região que está socialmente desvanecida.
Parte significativa do território do município de Montalegre é Parque Nacional da Peneda-Gerês. Colegas seus têm criticado a ausência do Estado no único parque nacional que temos. Também é essa a sua percepção?
É. Estamos mobilizados para uma reunião com o secretário de Estado do Ambiente e Desenvolvimento Regional no sentido de fazer uma comunidade intermunicipal ou uma intervenção territorial integrada para o Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Para serem as autarquias a fazerem a gestão do Parque?
Era preferível. Se o engenheiro Lagrida Mendes fosse vivo não gostaria de ver aquilo em que o Parque está transformado. Quando tinha uma direcção, não tinha grandes meios; agora que está sem direcção, está ao abandono e a ser um peso e um travão a muitas iniciativas locais.
Vão dizer ao secretário de Estado que estão disponíveis para fazer a gestão do Parque?
Sim. Mas há também que dizê-lo: são muito poucos os residentes no Parque que têm consciência que viver num parque nacional é um privilégio. Há dinâmicas locais que deveriam ter outra dimensão e que não saem da cepa torta. Todos somos responsáveis porque ninguém, para além do engenheiro Lagrifa Mendes, teve uma visão para o Parque. O abandono a que tem estado votado e as políticas e os planeamentos que foram desenhados suscitaram revoltas que se traduziram em hostilidades naquele naco de território. A diversidade do concelho de Montalegre vê-se na área do Parque.
Montalegre contribui com grande parte da energia eléctrica produzida em barragens...
São duzentos milhões de euros por ano que pomos no produto interno bruto (PIB).
E são devidamente compensados?
Não, de modo nenhum. Recebemos 400 e tal mil euros por ano de renda que não dão para pagar os consumos de iluminação pública. Depois de uma luta tenaz durante 20 anos pelos meus antecessores e pelos demais municípios com barragens, recebemos agora a garantia de que vamos receber todos os anos 700 mil euros como compensação da EDP. Decorrentes das intervenções que a EDP está a fazer em túneis na barragem da Venda Nova, está protocolada a compensação do município de Montalegre com um 1,5 milhões de euros para o desenvolvimento de determinados projectos, um dos quais direccionado para o empreendedorismo de jovens licenciados. Vamos envolver 150 jovens em acções direccionadas para o empreendedorismo num projecto desenvolvido pela Universidade do Minho. Tenho muita esperança no sucesso deste projecto.
Que projecto tem a câmara de Montalegre para a Quinta da Veiga?
A Quinta da Veiga pode ser tudo e pode vir a não ser nada. Lamenta-se que o Estado seja lesto a vender aquilo que são as nossas preciosidades como as empresas ANA, REFER ou EDP e nós não consigamos pôr a nossa casa em ordem. A Quinta da Veiga é um espaço com 115 hectares, com uma potencialidade enorme. A câmara de Montalegre quer comprá-la. Andamos há oito anos a mendigar a transacção que foi parar a um buraco, a uma coisa chamada ‘Património’ que está dependente da Direcção Geral do Tesouro. Esses 115 hectares podiam ser transformados em talhões para que jovens desenvolvem produções agrícolas. O conjunto de edifícios que ali estão podia ser transformado num excelente hotel com um campo de golfe. Lisboa atrapalha, Lisboa manda mas não comanda. Estou à espera de uma audiência desde Novembro. Quero crer que não estou numa lista negra.?Lisboa não dá resposta nenhuma.
Vai ter uma escola de música em Salto?
Sim. Uma escola de formação musical. É bonito ver ali 75 pessoas que não sabiam o que era uma nota de música ou uma pauta e que, em dois meses, já tocam. A ‘Yamaha’, durante três anos, vai dar formação musical gratuita a esta gente. A música é um mundo de oportunidades.
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44