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Presidente - «'Voltar a meter as mãos na terra' para combater a desertificação»
23 Janeiro 2013
Na semana da XXII Feira do Fumeiro, o presidente da Câmara Municipal de Montalegre concede uma longa entrevista, já nas bancas, ao jornal Público. Uma conversa onde Fernando Rodrigues faz o balanço da sua atividade política ao longo dos últimos 24 anos ao mesmo tempo que projeta o que poderá vir a suceder no futuro.
Com a XXII Festa do Fumeiro a decorrer entre 24 e 27 de janeiro, Montalegre orgulha-se da crescente promoção dos seus recursos endógenos. Prestes a terminar o mandato, Fernando Rodrigues faz o balanço dos 24 anos do PS à frente da Câmara Municipal.
Natural da Vila de Montalegre, “barrosão” de gema, Fernando Rodrigues assegura que é um “vício” contribuir para o desenvolvimento da sua terra. O presidente da Câmara Municipal de Montalegre vai já no seu quarto mandato, tendo ainda trabalhado dois anos como vereador.
Numa altura em que se encerra mais um ciclo na Câmara Municipal, porque não pode candidatar-se de novo ao cargo, Fernando Rodrigues faz um balanço positivo do seu trabalho.“Tenho muito orgulho, pois, ao fim de 24 anos deixo a Câmara numa situação financeira saudável, sendo detentora de uma escola que não tenho dúvidas que vai ser mantida”, assegura. Fazendo uma retrospetiva, acredita que “não vai haver, nos próximos 100 anos, quem faça tanto em Montalegre como nós fizemos”, afirma com regozijo. Apesar de tudo, prefere não ficar com os louros do trabalho. “O mérito não é meu, é das circunstâncias”, garante. Os fundos comunitários, que a Câmara recebeu ao longo de todos estes anos, “permitiram fazer mais infraestruturas no concelho do que em toda a vida se fez”, explica.
Foram muitas as obras realizadas no concelho, enquanto Montalegre esteve sob a sua alçada. “Temos uma boa rede viária interna, aldeias bonitas, limpas e qualificadas. Além disso, temos boas infraestruturas sociais, desportivas, culturais e socioeconómicas, como o pavilhão multiusos. Poucos municípios têm um espaço integrado como nós temos”, conta com orgulho. O autarca menciona a total regeneração da sede do município e ainda o Auditório Municipal, o novo Centro Escolar e uma área com dois mil metros, onde se realiza a feira e algumas exposições, o Ecomuseu, o Museu Mineiro da Borralha em curso e restante obra nas 135 aldeias do concelho. Todas estas obras só foram possíveis realizar com a ajuda dos fundos comunitários e muita “austeridade”, conta Fernando Rodrigues. “Nós somos um dos municípios mais pobres do país”. Com uma área semelhante à da ilha da Madeira (800 quilómetros quadrados), “temos 135 aldeias”. O desenvolvimento de infraestruturas que proporcionassem qualidade de vida à população foi uma prioridade durante os seus mandatos, mas sempre “com os pés assentes no chão”, evidencia. “Quando iniciámos o primeiro mandato, tínhamos uma dívida, de curto e médio prazo, superior a 100% da receita”. Hoje, porém, a situação é diferente. “Temos uma dívida total bancária que ronda os 25% da receita e é o segundo ano que encerramos com dívida zero a fornecedores”, garante, satisfeito com a meta alcançada.
Apesar de considerar o seu trabalho no concelho uma grande mais-valia, Fernando Rodrigues concorda com a Lei de Limitação de Mandatos. “É bom que as coisas mudem, é bom para a Democracia”, afirma, acrescentando: “e há que a estimar e incentivar, que a Democracia anda pelas ruas da amargura!”.
"VOLTAR A METER
AS MÃOS NA TERRA"
Desde que o processo de urbanização se começou a fazer sentir, os problemas de Montalegre são “os mesmos de todo o Interior”: o envelhecimento e a desertificação. “Antigamente, os licenciados ainda arranjavam emprego no Porto, ou em Braga”, recorda o autarca. Hoje, com o flagelo do desemprego nas grandes cidades, “vão para o estrangeiro”, explica. Assim, Fernando Rodrigues não tem dúvidas: “a solução dos problemas do Interior passa pela valorização dos recursos endógenos, do comércio, do turismo e da cultura local. Não vale a pena termos ilusões”, afirma. “É muito bonito dizer que temos que atrair empresas. Há 20 anos que o Interior anda a oferecer terrenos a empresários e outras regalias e as coisas não mudam”. Portanto, a solução passa, na sua opinião, por “voltar a meter as mãos na terra, ou seja, trabalhar mais no setor da agricultura”.
Neste sentido, a Câmara Municipal tem incentivado o setor primário, através de uma “aposta muito direcionada para os produtos locais”, realça. Há um aproveitamento muito grande daquilo que está na “génese do povo barrosão: o fumeiro (carne defumada de porco), a carne, a vitela, a batata, entre outros produtos de qualidade”. Desta feita, o presidente não hesita ao afirmar que “pode faltar dinheiro para uma obra (se não há, não se faz), mas para apoiar a economia e para apoios sociais de emergência não pode faltar investimento por parte da Câmara Municipal”.
A estratégia é, portanto, valorizar a economia local. “Por exemplo, em vez de entregar este negócio do fumeiro a uma grande empresa que fica com o lucro e depois inflaciona o valor dos produtos, pusemos mãos à obra e apostamos nos nossos recursos, fazemos a produção, a transformação e a venda direta para termos uma mais-valia”, explica.
FEIRA DO FUMEIRO: "A RAINHA DAS FEIRAS"
A promoção dos produtos é feita de várias formas. Uma das mais fortes é a realização da Feira do Fumeiro no concelho. Popularmente conhecida como o “São João das Chouriças”, a feira já vai na sua 22ª edição e já é fortemente reconhecida a nível nacional. Este ano, realiza-se entre os dias 24 e 27 de janeiro, em Montalegre, e recebe gente de todo o lado. A iniciativa “representa um negócio, durante o ano, de mais de cinco milhões de euros”, afirma Fernando Rodrigues.
A promoção do certame, considerado por muitos a "Rainha das Feiras", foi feita também nas grandes cidades, em particular nas casas de Trás-os-Montes do Porto, no dia 17, e de Braga, a 18 de janeiro. Nestes dias, “uma equipa da Câmara preparou uma mostra em que a chouriça, o presunto, o pão centeio e a alheira foram os reis da mesa”. Há um mercado bastante forte nestas duas cidades (Porto e Braga) que “são muito recetivas aos produtos da província”, conta o presidente da Câmara.
Mas, a fama dos produtos transmontanos vai mais além. “Não são só os nortenhos que apreciam os nossos produtos. Muitos lisboetas são apreciadores e recetivos a provarem as nossas iguarias”, afirma.
VALORIZAR O TURISMO
Também o turismo é uma grande aposta da autarquia, porque dinamiza o concelho e a sua economia. Fernando Rodrigues lembra que, através deste setor, são muitos os recursos rentabilizados: “a beleza do Parque da Peneda Gerês é um emblema que deve ser aproveitado; além disso, temos o parque de campismo na barragem dos Pisões e temos uma série de albufeiras que, na altura, foram um problema mas, hoje, fazem parte da paisagem e são também atrativo turístico”, afiança o entrevistado. Também as aldeias tradicionais, a caça, a pesca e a gastronomia são um cartão de visita de Montalegre.
O Eco-Museu de Barroso, cujo projeto remonta aos anos 90, foi estimulado e apoiado pela Câmara Municipal no ano 2000. Neste momento, segundo Fernando Rodrigues, o projeto procura fazer o desenvolvimento dos produtos endógenos junto das aldeias. “O Eco-Museu promove a aldeia, o património e a cultura, e procura transformar tudo isto em economia. Há fornos comunitários que estavam sem funcionar e hoje estão a funcionar”, explica o autarca.
"ORGULHO EM SER BARROSÃO"
Quando Fernando Rodrigues chegou à Câmara, havia barrosões “com vergonha de dizer que eram de Montalegre”, conta. Esta falta de autoestima da população, porém, tem vindo a alterar-se, à medida que os jovens vêm a sua terra mais valorizada. Hoje, há “outra vaidade, outro orgulho na maneira de ser dos barrosões na nossa cultura e nas nossas tradições”, atesta o autarca. “Não podemos escolher um bom caminho se não conhecermos o presente e não olharmos para o passado”, acredita. A escola tem um papel fundamental neste processo. “Presentemente, os jovens sentem mais a cultura dos pais e dos avós”, porque o Ecomuseu e as próprias escolas a incentivam.
Por outro lado, se a urbanização – e o individualismo que desta advém – “destrói o espírito comunitário das aldeias”, hoje em dia “as crianças aprendem a gostar mais do nosso território, da nossa cultura”, explica Fernando Rodrigues. A própria autarquia procura atrair os jovens a permanecer na sua terra, contribuindo para o seu desenvolvimento. Mais do que o desemprego, o grande problema é a desertificação. “Nós corremos o risco de não ter desemprego nenhum… quando não tivermos cá ninguém”, vaticina. “Isso não é solução para o país, nem é solução para o Interior”. Neste sentido, tem havido uma política de apoio aos jovens, principalmente àqueles mais qualificados. “Nestes últimos quatro anos, demos mais de 200 estágios profissionais. Foram quatro milhões de euros que entraram na economia”, conta o presidente. Há, ainda, uma preocupação com a modernização, que também atrai os jovens. “Já temos cobertura de Internet em todas as aldeias. Estão a colocar agora a Banda Larga”, conta.
Além da preocupação com os jovens, há uma grande vontade de proporcionar qualidade de vida aos mais idosos. Estamos a construir uma Unidade de Cuidados Continuados para 40 utentes. A cobertura do apoio domiciliário, que está a cargo da Misericórdia e de mais seis associações, foi incentivada e apoiada pela Câmara Municipal. “Qualquer pessoa que precise e esteja sozinha tem a garantia da alimentação e dos cuidados de higiene essenciais”, garante. O concelho conta ainda com um lar em Montalegre (com capacidade para 80 utentes), outro em Salto e outro em Cabril. “Tudo isto já foi feito na gestão do PS à frente da Câmara”, conta Fernando Rodrigues.
Também a dinamização sociocultural entre as várias gerações é uma prioridade do concelho. Fernando Rodrigues conta que “a Câmara tem uma equipa na biblioteca, em colaboração com a Misericórdia de Montalegre, que faz percursos e itinerâncias socioculturais”. Faz também animação nas principais aldeias: ensinam e aprendem a fiar e a tecer, a cozer o pão, ouvem as histórias dos mais velhos, cantam os reis... “Há, aqui, uma transmissão de geração em geração e este convívio das crianças com os mais velhos é realmente extraordinário”, garante.
PROJETOS PARA O FUTURO
Apesar de o mandato terminar no fim deste ano, Fernando Rodrigues não dá o trabalho por terminado. “Não estamos em fim de atividade da nossa imaginação, do trabalho e, muito menos, da luta”. Há ainda muito a fazer, muitas obras que espera que avancem ainda este ano. A ligação a Chaves – que “devia ser feita pelo Governo” – vai ser financiada pela Câmara, que “andou a poupar dinheiro” para o efeito. Além disso, explica, “vamos ajudar a fazer a estrada de ligação de Salto a Cabeceiras”, já que esta também beneficia o concelho. “Vamos ter uma ligação de Montalegre ao Porto que é menos 30 quilómetros do que indo pela A24. O Castelo, o Arquivo Municipal, a Praça Luis de Camões, o quartel da GNR da Venda Nova, a requalificação de mais aldeias com a rede de saneamento e as ruas entram imediatamente em execução”, garante, se houver fundos comunitários.
Apesar da falta de verbas, projetos não faltam à Câmara de Montalegre. “Vamos continuar a lutar por uma ligação a Braga”, acrescenta Fernando Rodrigues. Pois, “é de Braga que temos os principais clientes da gastronomia, do turismo. Temos, por isso, muitas outras coisas para fazer e vamos lutar por todas elas”, finaliza o autarca.
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44