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Um ano de troika em Montalegre
11 Abril 2012
Este mês assinala um ano que Portugal pediu ajuda financeira, pela terceira vez em 30 anos, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Bruxelas. Desta decisão surgiu o termo troika, usado como referência às equipas constituídas por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI que negociaram as condições de resgate financeiro na Grécia, na Irlanda e em Portugal. Entre nós, a troika tem como rostos Jürgen Kröger (Comissão Europeia), Poul Thomsen (Fundo Monetário Internacional) e Rasmus Rüffer (Banco Central Europeu). Quisemos saber o que pensa Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, sobre este ano e que implicações teve para o dia a dia dos barrosões. Um depoimento azedo que aborda igualmente o impacto da atual politica em Portugal e no Mundo.
CONCELHO - «Somos um caso excecional»
«Hoje a Câmara de Montalegre tem as receitas do estado que tinha há 10 anos. Andamos 10 anos para trás. A autarquia tem conseguido equilibrar o barco, temos um equilíbrio de contas e elas estão em ordem, com saldo positivo, porque nos apercebemos cedo dos problemas com que nos íamos debater. Somos muito disciplinados e não temos grandes fardos de encargos com dividas, juros ou obras faraónicas. Temos uma gestão realista e sensata. Também conseguimos receitas extraordinárias dos parques eólicos e ultimamente da EDP. Temos essas receitas, mas não esbanjamos nem o gastamos, porque se o fizéssemos estaríamos na mesma ou pior. Se recebêssemos o dinheiro e criássemos outros encargos desaparecia o dinheiro. Nós conseguimos compensar as perdas das receitas com novas receitas. Mesmo assim conseguimos até ganhar algum acrescento às nossas receitas.
O caso de Montalegre é um caso excecional. As autarquias estão, em grande parte, na falência ou pré falência. Com as medidas do Governo, de alteração às regras do QREN, da alteração ao financiamento, de uma lei "estúpida", que anda aí para ser agora regulamentada que é a lei dos compromissos, que não deixa funcionar as autarquias... estas medidas vão paralisar tudo. Há muitas autarquias que nem que lhes ofereçam dinheiro do QREN já não têm os 10, 15 ou 20 por cento próprios para responderem a essas solicitações. Em que estado é que está uma autarquia que não tem dinheiro para fazer uma única obra? Há muitos municípios assim que vão estar engasgados e que vão ter muitas dificuldades para suportar os encargos com o pessoal e os encargos correntes.
Nós, felizmente, temos saúde financeira. Temos tido muita austeridade e vamos continuar assim. É evidente que também sofremos as consequências. Também tínhamos muitos projetos, muitas obras para fazer. Temos muita necessidade de responder às carências do nosso concelho, que tem a área da ilha da Madeira, com 135 aldeias, todas elas a precisar de modernização, desenvolvimento e de infraestruturas para criar bem estar. Precisávamos de mais investimento na cultura, na ação social. Mas temos que ser realistas e há uma regra fundamental que eu tenho explicado e as pessoas compreendem muito bem. É assim em nossa casa: temos dinheiro, gastamos; não temos… não gastamos! Acho que essa regra de ouro todas as pessoas compreendem. Vivemos em dificuldades, vivemos uma época muito, muito difícil. A nossa autarquia não foge à regra. Estamos numa situação muito melhor do que a grande maioria das outras autarquias, mas estamos também em crise, em regime de austeridade severa. É melhor ter austeridade severa, mas de forma realista, sensata, prudente, sem pisar o risco vermelho… do que entrarmos em parafuso e depois termos que ser intervencionados por um banco e passar a pagar diretamente aos bancos ou a sermos geridos pelos bancos. Não! Em Montalegre não vai acontecer isso. Vamos ter sempre capacidade para sermos nós a gerir, orientar e, apesar de tudo, fazer algumas obras e escolhas».
PORTUGAL - «Agora estamos pior»
«É um ano de más lembranças. Podemos dizer mesmo que é um ano de má memória. Nós há um ano estávamos mal mas agora estamos pior. Se havia algumas esperanças há um ano… e havia, porque quem derrubou o Governo disse que já não havia lugar a mais austeridade e que os portugueses não aceitavam mais sacrifícios. … toda a gente esperava que as mudanças fossem para melhor. Passado um ano, ou até menos tempo, chegámos facilmente à conclusão que os portugueses foram enganados. Estamos hoje muito pior do que estávamos há um ano.
A vida dos portugueses é cada vez mais difícil. Há cada vez mais gente desempregada, cada vez mais gente a viver com muitas dificuldades. O problema maior são as perspetivas de futuro. O que é que vai acontecer? O que vem aí ainda mais? É esse o drama com que vivemos e esse presente é da troika, da política europeia, que não quer encarar os problemas e resolvê-los. Há um certo egoísmo dos países ricos, que sacrifica os pobres, porque têm economias fortes que dominam a economia europeia e mundial e sacrificam a produção nacional dos países pequenos, que têm muita dificuldade em impor-se e em resistir a uma moeda muito forte como o euro.
Vivemos hoje tempos muito duros, muito difíceis, à espera que em Portugal as coisas mudem e, sobretudo, à espera que mudem lá fora, que mudem na Europa, para que a Europa social volte a ser uma realidade. Nós estamos a destruir aquilo que durante muitos anos políticos europeus foram capazes de sonhar e criar. Nós agora estamos a destruir todos os dias a nossa sociedade, a nossa vida. Já foi destruído o mundo rural, a agricultura, a cultura, já vamos destruindo todos os dias muito da nossa identidade, tornamo-nos cada vez mais egoístas e agora não sabemos já o que aí vem. Vamos acabar por destruir tudo. Destruímos as empresas públicas, destruímos tudo o que dá lucro, passa tudo para os privados.
Só ouvimos falar em negócios, em grandes milhões, em grandes apoios para os bancos. Porém, as reformas são cada vez mais baixas, os vencimentos também. Os cortes são sucessivos e permanentes e nem sequer já ninguém acredita em promessas. A vida também se faz um bocadinho de expetativas, de ilusões. Tínhamos a ideia, de passado algum tempo, melhorarmos… mas hoje já ninguém acredita que daqui um ano isto mude. Esse é o drama que nós atravessamos e precisávamos da troika daqui para fora e de ter alguma autonomia. Eu espero que as coisas corram bem e mesmo correndo bem vai ser muito difícil, mas se correm mal vai ser um desastre. Nós ouvimos as noticias da Grécia e há muita gente vaidosa a dizer que nós não somos a Grécia. Mas eu não sei se nós não iremos ser. Já chegava bem de dramas e martírio, sobretudo para os mais jovens e aqueles que estão desempregados e têm famílias no desemprego. Há muita gente, sobretudo nas cidades, nesta lamentável situação. É uma situação explosiva, como disse o senhor Presidente da República. Isto é insuportável e as pessoas não vão resistir muito mais tempo. Espero que haja bom senso dos senhores da troika, dos senhores do dinheiro e do FMI…».
MUNDO - «Caminhamos para um beco sem saída»
«Eu tinha esperança que a Europa corresse com a senhora Merkel e o senhor Sarkozy e que isto pudesse levar outro rumo. É preciso coragem para que haja mais solidariedade no Mundo, mais equilíbrio, mais justiça. Claro que há países emergentes que também têm que crescer e desenvolver, que se calhar estão piores do que nós e… em alguns casos precisam de água, cuidados de saúde e da nossa solidariedade. Mas nós temos que fazer isto com harmonia. Vamos dar o exemplo da América. Há um por cento da população da América que detém 40 por cento da riqueza. Que sociedade é esta? Um por cento tem 40 por cento daquilo que pertence a todos. Será que esse um trabalha mais do que os 40? Porque é que esse tem a riqueza e os outros vivem na miséria? O presidente Obama não conseguiu. Enfrentou muitas dificuldades e a crise internacional. De certa maneira superou-a, até melhor do que na Europa. Mas ainda não conseguiu ultrapassar tudo isto. Os ricos não querem pagar impostos. Mas se não forem os ricos, quem é que os vai pagar? Parece-me que na Europa se quer seguir uma política financeira semelhante à dos Estados Unidos. Riqueza, riqueza… negócios, negócios. Isto não funciona. Caminhamos para um beco sem saída. Espero que haja muita coragem, frieza e paciência, mas que haja também a inteligência de mudar o rumo das coisas».
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44