-
Início
-
Transparência
-
Imprensa
-
Notícias da Autarquia
- V Itinerâncias Sociais e Culturais - Cambezes do Rio
V Itinerâncias Sociais e Culturais - Cambezes do Rio
20 Março 2012
Cambezes do Rio, Montalegre, recebeu, nas instalações da antiga escola primária, a equipa do projeto "Itinerâncias Sociais e Culturais com Seniores Barrosões". Já não é a primeira vez que o grupo se desloca à localidade e, na bagagem, nesta quinta fase, levou mensagens sobre a "via sacra". Enquanto esperavam, os idosos trabalharam a lã, como reflexo daquilo que fazem três noites por semana. Um momento acompanhado por Fátima Fernandes, vereadora da educação da autarquia, Irene Esteves, assistente social, e Gorete Afonso, em nome da biblioteca municipal.
Está no terreno a quinta fase do projeto “Itinerâncias Sociais e Culturais com Seniores Barrosões». Trata-se de um plano «da responsabilidade da Divisão Sócio Cultural - UBA - Serviços da Biblioteca Municipal» e «tem vindo a crescer», afirma Gorete Afonso, dirigente pela biblioteca municipal de Montalegre. Neste momento, «conta já com instituições parceiras várias do concelho, designadamente, lares de terceira idade, centros de dia, associações culturais e recreativas, juntas de freguesia, entre outras». Acompanhámos a passagem pela aldeia de Cambezes do Rio, exemplo vivo de sucesso do plano em curso.
«É UM PRAZER»
Fátima Fernandes, vereadora da educação da autarquia de Montalegre, afirma que «é um prazer ver este grupo numeroso de idosos reunido». É «nosso objetivo, com este projeto, trazer os nossos idosos de casa, de onde estão sozinhos, isolados e sem motivação», para um espaço «comum e com fins comuns». Podemos aqui constatar que «este grupo se uniu para trabalhar a lã» e «têm aqui peças que já muito pouca gente sabe fazer». O rosto feminino da autarquia alerta que, neste compêndio, estão aglomeradas três vertentes: «em primeiro lugar está a união e partilha. Depois, seguem-se estas atividades, sempre utilitárias, porque eles gostam de produzir e sentirem-se uteis. Em terceiro está a parte pedagógica, uma vez que os nossos jovens podem tirar um grande proveito destes ensinamentos».
«CONVÍVIO, PARTILHA, APRENDIZAGEM»
Foi com encanto que a vereadora da educação assistiu ao empenho que as senhoras de maior idade dedicam «a produzir o que é nosso». Sem se deter, acrescenta que «já ninguém sabe fazer meias de lã, já poucas pessoas sabem tecer», lamenta. Estes costumes são «uma riqueza que não se pode perder» e que «pode e deve ser transmitida». No caso concreto as reuniões decorrem nas instalações da antiga escola primária. Fatima Fernandes encara o acontecimento como «uma ótima ideia». Os argumentos são «válidos». Estamos perante «um espaço público, que tem como missão servir o público», assevera. Durante anos, «esta escola exerceu a função de ser um espaço se ensino» e, «alegremente, podemos dizer que continua a ter a mesma finalidade». É um espaço de «convívio, partilha e aprendizagem».
«ESTA É A PROVA»
Para Irene Esteves, assistente social municipal, «esta é a prova de que este projeto faz sentido» e «a prova de que, quando nós o idealizámos, tinha alguma razão de ser». O propósito «era juntar as pessoas, fomentar o convívio, quebrar o isolamento, criar motivos para que eles se juntassem num espaço público» e «aqui está uma prova que as pessoas se juntaram». Para além «de toda a união», estão a ser efetuados «trabalhos na área do artesanato tradicional, estão a repor algumas características da identidade cultural». A técnica da ação social ressalva que «o objetivo principal, que é a socialização dos idosos, está cumprido». Nessa linha de pensamento, espera «ver este espaço replicado noutras localidades».
«PRESERVAR O QUE É BARROSO»
É com orgulho que, Gorete Afonso, responsável pela biblioteca municipal de Montalegre, encara o «percurso das “itinerâncias». Em retrospetiva, lembra que «estamos numa 5ª fase» e «a avaliação de todas é bastante positiva». Com sentimento de angústia, lamenta «ter noção que somos uma gota de água que não está com tanta regularidade e assiduidade quanto o público nos solicita». Feito o balanço, acredita que «conseguimos despoletar movimentos sociais informais com os membros das próprias comunidades, no sentido de serem eles os dinamizadores de toda a ação». Nessa linha «foi possível quebrar a apatia», «levar uma lufada de ar fresco» e «conhecer melhor a realidade». Com este último elemento é exequível «tentar preservar o que é Barroso».
«LANÇAR SEMENTES»
Gorete Afonso referiu que «há mais pessoas e instituições que estão interessadas em acolher este projeto». Todavia, a verdade «é que nós, enquanto técnicos, não temos grande capacidade de resposta». Porém, «notamos que estamos a lançar sementes» e que «já há sementes que estão a germinar». É também «objetivo nosso, ao promover o processo, lançar as sementes e, por si, começar a ver os seus frutos, sem termos necessidade de estar permanentemente nessa localidade». De um modo simples, «o fim ultimo deste projeto é que as comunidades se organizem e comecem a laborar por si». Esta é uma realidade já vivida em Cambezes do Rio e «é com alegria que registo que afinal vale a pena trabalhar, sonhar… porque todos nós podemos construir um Barroso melhor, mais solidário e capaz».
VIA SACRA
Com as “Itinerâncias Sociais e Culturais”, «procurámos levar sempre produtos que sejam nossos», revela Gorete Afonso. Nessa linha, comenta que «já passámos alguns filmes sobre o ciclo do pão, a matança do porco». No fundo, há uma tentativa de «trabalhar conteúdos que são nossos e que são uma forma de avivar memórias e conduzir à reflexão». Por outro lado, a equipa também não está alheia ao calendário e «ao período em que estamos». Neste momento «vivemos a quaresma» e «decidimos trazer aos seniores a questão da via sacra». Por norma, «todos os idosos sabem o que é a via sacra», mas nós «quisemos dar um acrescento e mostrar um bocadinho da realidade, do que é que existe e suporta, a nossa cultura católica». Com recurso a imagens foi projetado numa tela material para «mostrar às pessoas que a fé vai para além do que é documentado na bíblia, que os lugares existem e que, apesar de ficarem muito longe, hoje as tecnologias possibilitam um rápido acesso a eles».
«COMEÇÁMOS ASSIM…»
Ana Lourenço não gosta de ser apelidada de responsável pelo convívio gerado na localidade de Cambezes do Rio. Prefere antes ser conhecida como «uma pessoa que não gosta de estar parada» e que acha que «mesmo depois da reforma ainda temos muito para dar e aprender». Recorda que «sempre tive estas ideias, mas nunca as pude concretizar». Agora, como está reformada, partilha que tem «mais tempo» e com «a ajuda do projeto da Câmara começámos a avançar devagarinho». Das ideias para a concretização «não demorou muito». Na aldeia, havia «uma prima minha que tinha um tear». Com ajuda do «meu marido e cunhado conseguimos arranjar as peças que faltavam e assim demos início a isto». A matéria-prima não é problema porque «ainda há aqui bastantes ovelhas».
COBERTORES, MEIAS, POLAINAS,
GORROS, COLETES…
Tendo como material a lã, são muitos os produtos que podem advir de mãos prendadas. Até ao momento já foram feitos «cobertores, meias, polainas, gorros, coletes, tapetes…». Para já «trabalhamos a lã mas, no futuro, podemos trabalhar outro material», assegura Ana Lourenço. Para quem julga que é um processo fácil, a empreendedora local explica o contrário: «a lã tira-se da ovelha ao fazer-se a rapagem da ovelha. Depois temos que a lavar muito bem lavada com sabão de barra. Quando essa tarefa estiver terminada, abre-se toda para secar. Segue-se o carmear, fiar, torcer… só depois de torcida é que vamos fazer as meadas. Chega aí o momento de escaldar essa lã com água muito quente, a ferver, e com sabão de barra. Só depois de escaldada é que se fazem os trabalhos». Passam muitas horas e «leva-se muito tempo a preparar uma peça», defende.
ANIMAÇÃO TRÊS NOITES
POR SEMANA
Às segundas, quartas e sextas, a partir das 20 horas, e por cerca de duas horas, as instalações da antiga escola primária ganham vida. Mais de uma dezena de locais reúnem-se para trabalhar a lã e transmitir conhecimentos aos mais novos. A sexta feira «é um dia especial», pois «contamos com a presença dos nossos jovens que tocam concertinas». A animação «é contagiante e todos convivem». Pela parte dos mais novos, «há muita vontade de aprender». Embora «ainda não esteja a população toda unida», Ana Lourenço acredita que o caminho é «para ser feito aos poucos». Com o tempo «mais gente se vai juntar a nós», porque «estamos todos com vontade de trabalhar, de continuar».
«COMBATE À SOLIDÃO»
Os materiais produzidos pelos artesãos locais são para venda. Contudo, o maior proveito que se tira desta conquista é «o combate à solidão» e a «união das pessoas», assume Ana Lourenço. É preciso ter em mente que «a maioria das pessoas de idade que aqui estão vivem sozinhas» e estes momentos de lazer «servem de pretexto para nos reunirmos e assim ninguém vive tão só». São momentos em grupo que «trazem à ideia histórias antigas» e que alegram «quem por aqui passa», conclui.
Conteúdo atualizado em9 de janeiro de 2018às 15:44